
Uma instalação artística no Somerville Community Growing Center, em Massachusetts, está utilizando uma tradição milenar dos povos andinos para contar histórias de imigração, identidade e pertencimento. Criada pela artista Leddy Saenz, a obra “Somerville Quipus: The Stories of Padres Latinos” transforma o quipu, antigo sistema de registro utilizado pelos incas, em uma representação das trajetórias de imigrantes nos Estados Unidos.
Instalada em junho de 2026, a obra inicialmente permaneceria no espaço até o final de agosto, mas, diante da repercussão positiva, sua exibição foi prorrogada até o fim de setembro.
Historicamente, os incas utilizavam os quipus — conjuntos de cordões e nós — para registrar informações numéricas, como população e produção agrícola. Na interpretação de Saenz, os nós e fitas passaram a registrar acontecimentos da vida dos participantes.
Os quatro conjuntos de nós localizados na parte superior representam o ano de chegada aos Estados Unidos. A posição dos nós indica milhares, centenas, dezenas e unidades. Fitas de diferentes cores representam acontecimentos importantes vividos posteriormente, além de perdas pessoais enfrentadas ao longo da trajetória migratória.
Para Saenz, que aborda em seu trabalho temas como imigração, identidade híbrida e memória comunitária, a instalação também dialoga com sua própria experiência entre a cultura peruana e a vida americana.
A artista considera o projeto especialmente significativo por permitir a participação direta da comunidade e por surgir em um momento de forte tensão em torno da imigração. Segundo dados citados pelo Deportation Data Project, mais de 6 mil pessoas foram presas pelo ICE em Massachusetts desde o início do segundo governo do presidente Donald Trump.
O projeto também ganhou espaço durante a Festa Junina realizada em 13 de junho no Growing Center. Saenz procurou a organizadora Yumi Izuyama para integrar a instalação à celebração brasileira. O tema do evento deste ano foi “Three Sisters”, buscando celebrar as culturas das Américas do Norte, Central e do Sul.
Segundo Izuyama, a Festa Junina também carrega uma história de resistência à opressão no Brasil.
A instalação permite interação física: visitantes podem tocar as fitas, sentir suas texturas e observar seu movimento com o vento. À noite, o quipu também é iluminado. Crianças, jovens e adultos têm interagido com a obra desde sua instalação.
Ao reinterpretar uma antiga ferramenta utilizada para registrar dados, Saenz dá ao quipu um novo significado. Em vez de transformar imigrantes apenas em estatísticas, a obra permite que eles próprios registrem suas experiências.
A mensagem que atravessa a instalação é simples, mas poderosa: por trás de cada número relacionado à imigração existe uma pessoa, uma história e uma vida construída nos Estados Unidos.