
O deserto do Arizona continua sendo cenário de uma das faces mais dramáticas da crise migratória na fronteira entre Estados Unidos e México. Pelo menos 73 corpos ou restos mortais de migrantes foram encontrados entre janeiro e julho de 2026, número superior ao registrado no mesmo período do ano passado.
De acordo com dados divulgados a partir de registros do Pima County Office of the Medical Examiner e de levantamentos da organização humanitária Humane Borders (Fronteras Compasivas), nos primeiros sete meses de 2025 haviam sido registrados 59 casos. A comparação representa um aumento de aproximadamente 24%.
O dado chama atenção especialmente porque ocorre em um período de forte redução das travessias irregulares pela fronteira. Mesmo com menos migrantes tentando entrar nos Estados Unidos, pessoas continuam morrendo em regiões remotas do Arizona, onde temperaturas extremas, falta de água e longas caminhadas transformam a travessia em uma luta pela sobrevivência.
Somente em junho de 2026, 13 mortes foram registradas, segundo informações da Humane Borders. Algumas das ocorrências foram concentradas em áreas próximas ao Organ Pipe Cactus National Monument e à Tohono O'odham Nation, regiões desérticas conhecidas pelas condições severas enfrentadas pelos migrantes.
O calor representa um dos maiores perigos. Durante o verão, as temperaturas no deserto podem ultrapassar facilmente os 40°C. Migrantes que percorrem essas áreas durante vários dias podem enfrentar desidratação severa, exaustão, insolação e desorientação. Em muitos casos, pessoas que não conseguem continuar acabam ficando para trás.
Há, entretanto, uma diferença importante nos números: os 73 casos representam corpos ou restos mortais recuperados em 2026 e não necessariamente pessoas que morreram neste ano. Alguns restos encontrados no deserto podem permanecer meses ou até anos antes de serem localizados. Por isso, autoridades e organizações especializadas trabalham para determinar quando as mortes ocorreram e identificar as vítimas.
A dimensão histórica da tragédia é ainda maior. O banco de dados mantido pela Humane Borders em parceria com autoridades forenses do Arizona reúne registros de mais de 4,4 mil migrantes mortos encontrados na região fronteiriça do estado desde 1981.
Outro problema é a identificação. Até julho de 2026, mais de 1,6 mil pessoas registradas na base permaneciam sem identificação, deixando famílias em diferentes países sem respostas sobre o destino de parentes desaparecidos.
Organizações humanitárias alertam ainda que os números oficiais provavelmente não representam toda a dimensão da tragédia. A extensão do deserto, as áreas extremamente isoladas e a decomposição dos corpos fazem com que muitos migrantes desaparecidos possivelmente jamais sejam encontrados.
Enquanto o debate político sobre imigração e segurança da fronteira continua nos Estados Unidos, os 73 corpos recuperados apenas nos primeiros sete meses de 2026 revelam uma realidade que permanece distante das estatísticas de detenções e deportações: para dezenas de famílias, a tentativa de chegar aos Estados Unidos terminou no silêncio do deserto do Arizona.
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